Inflação desacelera e mercado já vê luz no fim do túnel dos juros: veja por que otimismo tomou conta da Bolsa

Campos Neto afirma que arcabouço fiscal elimina o risco de descontrole da inflação, e Galípolo aponta previsões de corte de 3,5 pontos na Selic em 18 meses

Inflação desacelera e mercado já vê luz no fim do túnel dos juros: veja por que otimismo tomou conta da Bolsa
Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, durante audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) Lula Marques/ Agência Brasil

A prévia da inflação, o IPCA-15, recuou neste mês e veio abaixo do que analistas esperavam. Diante do indicador, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou ontem que a aprovação do arcabouço fiscal eliminou a expectativa de risco de descontrole da inflação. A combinação reforçou o otimismo no mercado financeiro, que já vem crescendo nos últimos dias.

O Ibovespa, índice de referência da Bolsa brasileira, a B3, fechou ontem em alta de 1,15%, aos 110.054 pontos. No mês de maio, o indicador acumula alta de 5,38%.

— O arcabouço tem um grande poder de influenciar a expectativa de inflação futura, porque existia um medo de que a inflação pudesse, simplesmente, sair do controle. O arcabouço deixa muito claro que esse medo não existe mais. Você eliminou o que chamamos de risco de cauda — disse Campos Neto em entrevista à GloboNews.

Ele reforçou que não há relação direta entra a aprovação da regra fiscal e uma eventual redução de juros, ressaltando que o impacto se dá nas expectativas de agentes do mercado. E citou como exemplo o recuo das taxas de juros futuros.

Ontem, a taxa DI com vencimento em janeiro de 2025 caiu de 11,63% para 11,47%, uma queda de 1,38%. Para Alexsandro Nishimura, economista e sócio da Nomos, houve “impacto nítido” das declarações de Campos Neto.

O presidente do BC ainda elogiou a articulação do governo para aprovar o arcabouço:

— Muito impressionante esse processo. Eu reconheço o grande trabalho feito pelo governo, pelo ministro Fernando Haddad. E como o Congresso se mobilizou e fez uma votação rápida e expressiva. O arcabouço fiscal é um tema muito importante para a gente (BC) porque influencia nas expectativas.

Previsão de IPCA menor

Campos Neto se recusou a prever uma redução na taxa básica de juros (Selic), atualmente em 13,75% ao ano, no futuro próximo, argumentando que o seu é só um voto do total de nove no Comitê de Política Monetária (Copom). Mas reconheceu que o IPCA-15 de maio “veio melhor”.

Apesar disso, reafirmou que o processo de desinflação no Brasil está “em ritmo muito lento”, o que demanda uma política monetária restritiva.

— Achamos que o processo de desinflação ainda não acabou e precisamos ter certeza de que faremos a inflação convergir para o alvo — disse Campos Neto em vídeo gravado para um evento da agência de classificação de risco Moody’s.

 

O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, recém-nomeado para a Diretoria de Política Monetária do BC, afirmou ontem que o mercado já prevê um corte de pelo menos 3,5 pontos percentuais na Selic nos próximos 18 meses. Segundo Galípolo, o preço de ativos como câmbio e juros de longo prazo, por exemplo, sinalizam essa expectativa.

— Havia muito ceticismo em cada anúncio que era feito (pelo governo). Havia a reoneração dos combustíveis e sem arcabouço fiscal. Mas agora, olhando o preço dos ativos, vemos o real em um patamar mais valorizado (que o dólar) e os juros longos no segundo semestre chegando a 10%. Isso envolve um corte de 3,5 pontos percentuais da Selic nos próximos 18 meses — afirmou Galípolo, em evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Em relatório, os analistas da XP Rodolfo Margato e Alexandre Maluf reduziram suas projeções para inflação este ano de 6,2% para 5,4%. Eles avaliam que a queda nos preços das commodities e o recuo do câmbio darão alívio à inflação.

Analistas de mercado acompanham com lupa os índices de inflação, pois a expectativa é que o BC dê início ao ciclo de cortes da Selic quando os preços forem controlados. Por isso, empresas mais sensíveis a juros, como varejistas e construtoras, avançaram ontem, graças à desaceleração do IPCA-15.

A MRV ficou entre as maiores altas do dia, com ganho de 10,33% nas ações ordinárias (ON, com direito a voto), a R$ 10,04. Os papéis ON da Via, dona de Ponto e Casas Bahia, saltaram 7,76%, a R$ 2,36. E a Renner avançou 6,04%, a R$ 19,50.

Mas a maior alta foi da Hapvida: 10,99%, a R$ 3,94. O Bank of America (BofA) reforçou a recomendação de compra do ativo e elevou seu preço-alvo de R$ 4 para R$ 5,50.

Dólar sobe 1,66%

Com o argumento de que “a Bolsa está barata”, Gabriel Meira, sócio da Valor Investimentos, afirmou que “qualquer notícia positiva é capaz de promover fluxo e puxar os preços para cima”. Com a aprovação do arcabouço fiscal, ele projeta que o Ibovespa atinja os 115 mil pontos:

— Os resultados das empresas vêm superando as expectativas dos analistas, mas ninguém vai para a Bolsa enquanto se tem um retorno de quase 14% (da Selic) sem fazer nada.

Entre os papéis mais negociados, a ação preferencial (PN, sem voto) da Petrobras recuou 0,75%, a R$ 25,46, seguindo o movimento do petróleo no exterior. Depois de o vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, minimizar a perspectiva de novos cortes de produção da Opep+ na reunião da semana que vem, os contratos futuros do Brent recuaram 2,7%, a US$ 76,25 o barril, e os do WTI perderam 3,4%, a US$ 71,83.

Já Vale ON caiu 0,31%, a R$ 64,85. Segundo Marcus Labarthe, sócio da GT Capital, a lenta recuperação da economia da China e a falta de estímulos em grande escala têm afetado as commodities.

— A demanda acabou sendo maior no mercado de consumo e não no mercado imobiliário, que historicamente impulsionou o minério de ferro. E a China compra 70% do minério de ferro exportado pelo Brasil — disse Labarthe.

Já o dólar comercial subiu 1,66%, a R$ 5,0355. Segundo Nishimura, da Nomos, a perspectiva de corte de juros no Brasil e manutenção de uma política mais restritiva nos Estados Unidos faz investidores preferirem a maior economia do mundo.

Margato e Maluf, da XP, avaliam que a aprovação do arcabouço fiscal ajudou a reduzir os prêmios de risco. Com isso, eles veem o dólar a R$ 5 no fim do ano, contra R$ 5,30 anteriormente.