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Em novo capítulo

hoje no TRE, novela do julgamento de Carmelita Castro parece longe do fim

Mesmo que tenha a cassação mantida pela corte eleitoral, prefeita de São Raimundo Nonato poderá se manter no cargo enquanto prováveis embargos sejam julgados

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Jornalismo de VerdadeANDRÉ PESSOA Fotojornalista pernambucano especializado em reportagens ambientais. Tem trabalhos publicados em exposições, catálogos de arte, livros, emissoras de televisão, jornais, revistas e plataformas digitais no Brasil e no exterior. Já esteve documentando a natureza, a cultura e a história de países como a Polônia, Grécia, Costa Rica, Espanha, Holanda, França, México, Alemanha, África do Sul, Turquia, Egito, Panamá, República Tcheca, Bélgica, Jordânia, EUA, Cuba, Itália, entre outros.

19/05/2020 11h00
Por: André Pessoa
Fonte: André Pessoa
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Em novo capítulo hoje no TRE, novela do julgamento de Carmelita Castro parece longe do fim (Foto: Wilson Nanaia/Portal AZ)
Em novo capítulo hoje no TRE, novela do julgamento de Carmelita Castro parece longe do fim (Foto: Wilson Nanaia/Portal AZ)

elenovela é uma história dividida em capítulos, em que o seguinte é a continuação do anterior. O sentido geral da trama é previsto inicialmente, mas o desenrolar e o desenlace não. 

As novelas mexicanas são mais conhecidas por criar uma espécie de vício ou dependência em seu telespectador. Geralmente apresentam produções precárias com cenas clichês e óbvias que se repetem sistematicamente, mas que pelo enredo melodramático, brega, quase sempre com uma vilã como principal protagonista, prende a nossa atenção.

Mas as vezes, a vida real pode ser tão inusitada e angustiante que imita uma novela. Em cartaz de forma virtual em tempos de pandemia pelo canal oficial do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI), o julgamento por vídeo conferência da prefeita do município de São Raimundo Nonato (525 km de Teresina), Carmelita de Castro Silva (Progressistas), se transformou na live política mais concorrida e que se repete, sem fim, sessão após sessão, como numa novela mexicana. 

Nessa história real, o enredo mistura cenas dramáticas com outras hilariantes, mas já parece indicar que a impunidade é a maior vilã, personagem fundamental nas tramas latinas que começam mal e terminam ainda piores.

Disputa acirrada 

Eleita em outubro de 2016 com 49,83% do percentual válido, ou 9.176 votos contra 8.782, uma pequena diferença de 349 votos, pouco mais de 2%, Carmelita Castro assumiu a gestão do município em janeiro de 2017 já respondendo a dois processos na Justiça Eleitoral: uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) e uma Ação de Impugnação de Mandato Eleitoral (AIME). 

Carmelita Castro (Foto: reprodução/Facebook)

No dia 22 de fevereiro, em plena véspera de carnaval, pouco mais de um mês do novo governo municipal, o juiz Fabricio Paulo Cysne de Novaes, sem espaço para folias, pediu a perícia da Polícia Federal para verificar a ilicitude ou não das provas de audiovisual anexadas aos autos contra a prefeita do Progressistas.
 
Mas foi somente quase três anos depois, em setembro de 2019, após um longo processo, já sob a coordenação do juiz Mário Soares de Alencar da 13° zona eleitoral de São Raimundo Nonato, que Carmelita Castro terminou tendo o seu diploma cassado pela Justiça Eleitoral. 

Rol de culpados 

A sentença em primeira instância condenou ela e vários outros integrantes do seu grupo político, todos acusados de variados crimes, entre eles, abuso de poder econômico, na linguagem popular, a literal, quase sempre impune e tão comum compra de votos, por mais nefasta que seja para a Democracia. A disparidade de armas que transforma uma disputa legítima, constitucional e democrática em fraude. 
 
Na vitrine das bondades eleitorais das eleições de 2016 em São Raimundo Nonato, os produtos em maior destaque nas prateleiras foram a construção de poços tubulares, reformas hídricas e até calçamentos, tudo financiado providencialmente pela Secretaria Estadual da Defesa Civil, na época comanda pelo marido de Carmelita Castro, atual deputado estadual Hélio Isaías (PP). 

As irregularidades foram tão escancaradas que permitiram uma extensa documentação audiovisual do desenrolar dos fatos, em diferentes povoados, pelos próprios adversários que facilmente conseguiram registrar as obras prometidas ou realizadas e que terminaram, segundo a Justiça Eleitoral, sendo utilizadas efetivamente como moeda no pleito municipal.

Novas eleições 

O magistrado ficou tão escandalizado com as provas do processo que após condenar os acusados determinou imediatamente, num prazo de 90 dias, eleições suplementares para ocupação dos cargos vagos, mas Carmelita Castro liderou um movimento em conjunto com todos os envolvidos, como numa manada em disparada, para recorrer da decisão de primeira instância ao Tribunal Regional permanecendo nos cargos. 

Além da prefeita, tiveram os diplomas cassados o vice-prefeito Luís Alberto Macêdo (PT), e os vereadores Rian Marcos Alves da Silva (MDB), Nunes de Jesus Santos (MDB) e Laércio Dias de Carvalho (PP). Já o ex-secretário da Defesa Civil, Hélio Isaias foi condenado por utilizar-se de cargo público para atender interesses pessoais e teve os direitos políticos suspensos por oito anos. 

Além dele, a prefeita, o vice-prefeito, três vereadores e mais dois correligionários também ficaram inelegíveis pelo mesmo período de exatos 2.920 dias. Mas, como todos recorreram em conjunto ao TRE-PI, terminaram se mantendo nos cargos e exercendo plenamente os seus mandatos até hoje, mesmo com os títulos cassados e faltando pouco mais de 6 meses para o final do mandato, como numa cena típica de uma novela mexicana que nunca acaba, apesar do já previsível resultado supostamente desfavorável.

Realidade nua e crua

Nesse cenário real, mas pouco naturalista, muito mais melodramático, como se fizessem teatro na TV com pouco compromisso com a realidade e a opinião pública, os advogados dos acusados, sempre que possível, vem se revezando na tribuna virtual do TRE como numa ladainha, lenga-lenga ou cantilena, desprezando provas que confirmam fatos. Mas até a liberdade criativa das novelas mexicanas que tem como principais influências as radionovelas cubanas ou argentinas onde os telespectadores se acostumam com à previsibilidade, impõe limites.

No caso do julgamento de Carmelita Castro no TRE-PI, porém, todos os estágios do bom senso já devem ter sido ultrapassados. O que parecia um dramalhão mexicano virou uma comédia pastelão típica de uma República das Bananas onde quase tudo termina em pizza.

O certo é que incofessáveis e poderosos interesses econômicos, políticos e jurídicos parecem se esconder por trás das cortinas desse teatro da vida real que envolve impunidade e descrença na Justiça sob a liderança máxima do senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, capô maior do fisiológico e mal cheiroso centrão, além de líder máximo do grupo político de Carmelita Castro, manipulando conforme seus interesses, como numa marionete, os destinos de seus aliados e consequentemente da população local. 

Próximos capítulos

A mocinha, por exemplo, que nas novelas latinas é quase sempre pobre e sofredora em busca do par perfeito, na trama real que se desenrola capítulo após capítulo no TRE foi condenada por crime eleitoral, é casada com um poderoso chefão com direitos políticos suspensos e representa uma nova geração de coronéis de saia no sertão nordestino. Tantos anos depois, mudou apenas o gênero, mas os métodos de fazer política permanecem os mesmos com concepções e práticas assistencialistas, clientelistas e patrimonialistas.

Mesmo que tenha a sua cassação mantida pela corte eleitoral hoje, ou o que é mais provável, em futuras sessões do TRE, nem Carmelita Castro nem nenhum dos acusados do seu grupo político terão que se afastar dos cargos até, pelo menos, o julgamento dos prováveis embargos infringentes ou de declaração, conforme seja o resultado do colegiado. 

Se, ao contrário, for absolvida pela maioria dos integrantes do TRE, e tiver a sua cassação suspensa, Carmelita Castro poderá finalmente sonhar com a reeleição. Mas como toda novela mexicana precisa de uma vilã clássica que usa uma quantidade de laquê exagerada no cabelo, sorri escandalosamente mesmo quando o momento exige outra postura, xinga vez por outra os próprios aliados e passa por cima de tudo e de todos como se fosse um trator, não sabemos ao certo o final dessa novela tupiniquim. Só nos resta mesmo aguardar as cenas dos próximos capítulos.

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