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Queimadas

Para Guedes, pobreza é maior inimiga do meio ambiente — não é bem assim

“O desmatamento que ocorre hoje em maior intensidade está na fronteira agropecuária do Brasil, lideradas por produtores rurais.

22/01/2020 07h01Atualizado há 8 meses
Por: Alírio Ribeiro
Fonte: Por: Rodrigo Caetano
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Paulo Guedes, Ministro da Economica
Paulo Guedes, Ministro da Economica

Paulo Guedes, ministro da Economia, disse nesta terça-feira (21) em painel do Fórum Econômico Mundial que a pobreza é o maior inimigo do meio ambiente.

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, falou algo semelhante em dezembro: “Temos que encontrar a origem (do aumento do desmatamento), que está entre outras razões, na falta de desenvolvimento econômico sustentável para os mais de 20 milhões de brasileiros que vivem lá.” Para especialistas, no entanto, a relação não é adequada no Brasil, onde o desmatamento para fins de subsistência representa uma porcentagem pequena perto da devastação em curso na Amazônia.

“O desmatamento que ocorre hoje em maior intensidade está na fronteira agropecuária do Brasil, lideradas por produtores rurais. Para desmatar a Amazônia, é preciso dinheiro, queimar em larga escala mesmo é difícil, devido à umidade da região”, diz o economista Daniel Duque.

O custo de atear fogo em uma área de mil hectares chega perto de R$ 1 milhão, segundo cálculos do Ministério Público Federal.

Ao mesmo tempo, associar o modo de vida dos povos florestais com a miséria é um erro, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), organização não governamental que trabalha pelo desenvolvimento da região. “É claro que todos se beneficiam com uma melhora nas condições de saúde e educação, mas miséria mesmo encontramos nas grandes cidades”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam. Segundo ela, sem a floresta, a miséria seria maior para os povos da Amazônia.

A fala do ministro Paulo Guedes, de que a pobreza é a maior inimiga do meio ambiente, deve ser melhor contextualizada, segundo a diretora. “Isso pode valer para alguns países, mas não vale para a Amazônia”, diz ela. “A floresta é uma grande fonte de recursos para seus habitantes. É ela que garante a subsistência. Quem desmata o faz para lucrar com a produção de alimentos ou com a especulação imobiliária.”

Dados do Ipan indicam que, entre janeiro e agosto do ano passado, as propriedades privadas concentraram 33% dos focos de fogo e 28% do desmatamento registrados pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora as queimadas na Amazônia. Essas propriedades representam 18% da área total ocupada no bioma. As áreas indígenas, por outro lado, que representam 25% do total, foram responsáveis por cerca de 6% dos focos de queimadas e 4% do desmatamento.

A maior parte do desmatamento (31%) ocorreu em áreas públicas não destinadas, federais ou estaduais, que pertencem ao governo. “É uma prova que desmatamento não gera riqueza. Essas áreas estão sendo perdidas sem gerar um real de imposto ou valor para a sociedade, apenas lucro para quem destrói”, diz Ane.

Para descobrir qual é a relação entre desmatamento e regiões de baixo desenvolvimento econômico, estudo de economistas austríacos, chegou à conclusão que, apesar de a renda per capita ser o determinante mais robusto das diferenças na cobertura florestal, essa relação não é tão simples assim.

Na verdade, segundo os autores, espera-se que a relação entre renda per capita e cobertura florestal seja em forma de U, uma vez que em estágios iniciais de desenvolvimento a demanda por lenha provavelmente aumentará com a renda, enquanto esse uso de energia é de menor importância em níveis mais altos de desenvolvimento.

“Observamos que os países com um PIB per capita mais alto tendem a ter uma cobertura florestal significativamente menor no grupo de economias de baixa renda”, conclui o estudo.

Essa premissa, no entanto, pode mudar de acordo com uma série de variáveis. Uma delas é o modelo de atuação do agronegócio que, no Brasil, já é suficiente para alterar essa análise.

Na análise, o grupo usou dados de satélite na cobertura florestal ao longo das fronteiras nacionais para estudar os determinantes das diferenças de desmatamento entre os países.

Essa discussão acontece num momento em que o mundo se volta para questões sobre o meio ambiente. Recentemente, o Brasil passou a ser alvo de duras críticas por conta do aumento na devastação da amazônica. Bolsonaro sempre negou que o país negligenciasse o cuidado com a floresta.

“O investidor estrangeiro não compra que o problema ambiental é da pobreza. A fala só mostra como o Brasil está surdo à ideia de que o que vai mover o investimento são as questões ambientais”, diz Monica de Bolle, diretora de estudos-latino americanos e mercados emergentes da universidade americana Johns Hopkins.

O aumento na devastação acaba afastando investidores que priorizam o cuidado com o meio ambiente e mancha a imagem do Brasil num contexto em que o país está prestes a assinar um dos mais importantes acordos comerciais de sua história, entre o Mercosul e a União Europeia.

“As economias vão se estruturar ao redor dessa ideia. Mas o Brasil faz o caminho contrário, apesar de ser uma potência ambiental. É do meio-ambiente que virão as regulações financeiras e tributárias, as políticas de investimento. No Brasil, o debate entre investimento e meio-ambiente ainda é apartado, mas no mundo não é mais”, diz Monica.

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