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Ameaça mundial

O que se sabe sobre o bombardeio ordenado por Trump e a morte do principal general iraniano

Um dos homens mais poderosos do Irã, Qassem Soleimani morreu em ataque americano nesta quinta-feira (2). Especialistas preveem forte reação do país e líderes iraquianos falam em vingança.

03/01/2020 16h42
Por: Alírio Ribeiro
Fonte: G1
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Em foto de 2016, Qassem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária Iraniana, participa de um reunião em Terrã, no Irã — Foto: Office of the Iranian Supreme Leader/via AP/Arquivo
Em foto de 2016, Qassem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária Iraniana, participa de um reunião em Terrã, no Irã — Foto: Office of the Iranian Supreme Leader/via AP/Arquivo

A morte do general Qassem Soleimani, um dos homens mais poderosos do Irã, marca mais um capítulo da escalada de tensão entre os governos iraniano e norte-americano.

O líder da Força Al Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária, foi atingido nesta quinta-feira (2) em um bombardeio ordenado por Donald Trump, em Bagdá, no Iraque.

Em nota, o Pentágono culpou Soleimani por mortes de americanos no Oriente Médio e afirmou que o objetivo foi deter planos de futuros ataques iranianos.

Enquanto líderes iranianos falam em "vingança", a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá pede aos cidadãos norte-americanos que estão no Iraque que deixem o país o mais rápido possível, por via aérea ou terrestre.

 

Veja o que se sabe até agora sobre o bombardeio ordenado por Trump e a morte do general iraniano:

 

Quem era Qassem Soleimani?

 

Qassem Soleimani tinha 62 anos e era um alto líder das forças militares iranianas. Herói nacional, ele foi o general da Força Al Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária, um braço paramilitar de elite que responde diretamente ao aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país há 30 anos.

Soleimani era apontado como o cérebro por trás da estratégia militar e geopolítica do país. Muito próximo ao líder supremo, ele sobreviveu a diversas tentativas de assassinato nas últimas décadas.

 

Quantos morreram no ataque?

 

Ao menos sete pessoas morreram no ataque. Além de Qassem Soleimani, Abu Mahdi al-Muhandis, chefe das Forças de Mobilização Popular do Iraque (milícia apoiada pelo Irã) também foi identificado.

Entre outros cinco mortos está o porta-voz das Forças Populares de Mobilização, Mohammed Ridha Jabri. O enterro de Soleimani e al-Muhandis será no sábado (4) e tanto o Iraque quanto o Irã decretaram três dias de luto.

 

Como foi o ataque?

 

O bombardeio ordenado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, teve como alvo um comboio de veículos dentro do Aeroporto Internacional de Bagdá.

A comitiva com Soleimani vinha da Síria e deixava o aeroporto em dois carros. O ataque aconteceu próximo a uma área de cargas. O Pentágono não apresentou detalhes sobre a ação, mas veículos da imprensa internacional dizem que mísseis teriam sido lançados pelo drone American MQ-9 Reaper.

 
Local onde general iraniano foi morto em Bagdá, no Iraque — Foto: Juliane Monteiro/ G1Local onde general iraniano foi morto em Bagdá, no Iraque — Foto: Juliane Monteiro/ G1

Local onde general iraniano foi morto em Bagdá, no Iraque — Foto: Juliane Monteiro/ G1

 

 

Qual a relação do ataque com invasão de embaixada dos EUA em Bagdá?

 

O bombardeiro aconteceu poucos dias após manifestantes invadirem a embaixada dos EUA em Bagdá, entrando em confronto com as forças americanas do local. O ataque aconteceu nesta terça-feira (31).

Em 31 de dezembro, o presidente americano, Donald Trump, acusou o Irã de estar por trás dos ataques, mas o país negou responsabilidade. Trump ainda afirmou em mensagem no Twitter que o Irã pagaria um preço muito alto se houvessem mortes ou danos em instalações americanas.

 

"Isso não é um aviso, é uma ameaça", tuitou o presidente norte-americano.

 

O Irã afirmou, por meio do seu ministério de Relações Exteriores, que os EUA "têm a surpreendente audácia de atribuir ao Irã os protestos do povo iraquiano contra a matança selvagem de pelo menos 25 iraquianos", citando os ataques dos EUA no Iraque e Síria contra milícias xiitas apoiadas pelo Irã em 29 de dezembro de 2019.

Dias antes, os EUA acusaram o grupo pelo ataque que matou um empreiteiro civil do país e feriu quatro membros do serviço americano e dois membros das Forças de Segurança do Iraque, perto da cidade de Kirkuk, rica em petróleo.

 

O que militares do Irã fazem no Iraque?

 

 

Há vários anos, o Iraque se encontra no meio do fogo cruzado entre EUA e Irã.

Em 2003, ao derrubar o regime de Saddam Hussein, Washington passou interferir diretamente na política iraquiana. Mas Teerã e o movimento pró-Irã se infiltraram em partidos e entidades da sociedade civil do Iraque.

A crescente influência de Teerã no Iraque – que é um dos maiores produtores de petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) – sempre gerou temor de um isolamento diplomático e de sanções políticas e econômicas.

As forças pró-Teerã ali instaladas acumularam um arsenal não só graças ao Irã. Em certo momento, essas milícias estiveram ao lado dos próprios americanos, em particular nas ações contra o Estado Islâmico.

O Irã treina e apoia um grupo de milícias que atua no Iraque. Elas estão todas organizadas em uma federação chamada Forças de Mobilização Popular.

O Iraque não é o único país onde há influência iraniana –ao menos no Iêmen, Síria e Líbano há interferência do Irã.

 

Qual a justificativa dos EUA para a ação militar?

 

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, diz que a decisão foi tomada com base em análises de inteligência.

 

 

"Ele [o general Soleimani] estava planejando ativamente para realizar ações na região – uma ação grande, como ele descrevia – que colocaria em risco dúzias, se não centenas, de vidas americanas. Nós sabemos que era iminente", afirmou Pompeo.

 

Segundo nota oficial enviada pelo Pentágono, a ação faz parte de "medidas defensivas decisivas para proteger o efetivo dos EUA no exterior" e "teve como objetivo impedir futuros planos de ataque iranianos"

O órgão também informou que o "general Soleimani estava ativamente desenvolvendo planos para atacar diplomatas americanos e membros do serviço no Iraque e em toda a região."

Confira nota na íntegra:

"Sob a direção do presidente, os militares dos EUA tomaram medidas defensivas decisivas para proteger o efetivo dos EUA no exterior, matando Qasem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária Islâmica Corps-Quds Force, considerada pelos EUA uma organização terrorista estrangeira.

O general Soleimani estava ativamente desenvolvendo planos para atacar diplomatas americanos e membros do serviço no Iraque e em toda a região.

O general Soleimani e sua força Quds foram responsáveis pela morte de centenas de americanos e membros da coalizão e por ferir outros milhares.

Ele orquestrou ataques a bases da coalizão no Iraque nos últimos meses – incluindo o ataque de 27 de dezembro – matando e ferindo efetivos americanos e iraquianos.

 

O general Soleimani também aprovou os ataques à embaixada dos EUA em Bagdá que ocorreram nesta semana.

Este ataque teve como objetivo impedir futuros planos de ataque iranianos. Os Estados Unidos continuarão a tomar todas as medidas necessárias para proteger nosso povo e nossos interesses onde quer que estejam ao redor do mundo."

 

Como a oposição a Trump recebeu a notícia?

 

Segundo a agência de notícias AFP, o Congresso americano não foi informado com antecedência sobre o ataque, e as consequências geraram preocupação entre os congressistas a menos de um ano das eleições presidenciais nos EUA.

A democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara de Representantes, advertiu que o bombardeio ameaça provocar "uma perigosa escalada da violência".

Já o senador democrata Christopher S. Murphy escreveu no Twitter que "Soleimani era um inimigo dos Estados Unidos".

"Esta não é a questão. A questão é que – como os relatos sugerem – a América acaba de assassinar, sem nenhuma autorização do Congresso, a segunda pessoa mais poderosa do Irã, desencadeando conscientemente uma potencial guerra regional maciça?"

 

Quais as possíveis consequências do ataque?

 

O professor de relações internacionais do Ibmec Tanguy Baghdadi prevê reação forte do Irã. "É catastrófico! Esse fato não passa em branco! É garantido que o Irã vai dar uma resposta", disse o especialista.

 

O comentarista Guga Chacra, da GloboNews, diz que as consequências serão gravíssimas no Oriente Médio.

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