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FHC

FHC: Taxar seguro-desemprego é ‘ridículo’; agenda 'ultraliberal' de Bolsonaro pode gerar revolta como no Chile

O ex-presidente classificou

26/11/2019 12h50Atualizado há 2 semanas
Por: Alírio Ribeiro
Fonte: BBC News
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© BBC Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que taxar seguro-desemprego é medida 'ridícula' de políticos que vivem numa 'bolha'.
© BBC Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que taxar seguro-desemprego é medida 'ridícula' de políticos que vivem numa 'bolha'.

Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não é apenas a polarização que pode levar o Brasil a crises e protestos. Na avaliação dele, a agenda econômica "ultraliberal" do governo Jair Bolsonaro é um fio 'desencapado' capaz de gerar revoltas populares, como as que ocorrem no Chile.

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, em Londres, FHC elogiou a reforma da Previdência, mas não poupou palavras para criticar outras propostas de ajuste fiscal lançadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, como a taxação do seguro-desemprego.

"Na situação do mundo hoje, um fio desencapado pode levar a um curto-circuito. Eu quero isso? Não, mas pode acontecer. Eu acho que essa política ultraliberal dificilmente se implanta na sociedade brasileira", disse.

O ex-presidente classificou "de ridícula" a criação pelo governo de uma alíquota de 7,5% sobre o benefício concedido aos desempregados. Para ele, a medida é fruto da mente de políticos que vivem 'numa bolha' e desconhecem a 'realidade brasileira'.

"Eu sou mais liberal que estatizante, mas não sou ultraliberal. Acho que tem que ter equilíbrio e noção das necessidades concretas das populações. Não adianta ter uma fórmula bem-feita, porque ela não se aplica a todas as sociedades. Taxar seguro-desemprego chega a ser quase ridículo."

Na conversa com a BBC News Brasil, Fernando Henrique Cardoso também criticou os novos "rumos do PSDB", disse que, se estivesse no lugar do deputado Aécio Neves (PSDB-MG) deixaria o partido voluntariamente e sugeriu um novo nome para disputar a Presidência pela sigla em 2022: Eduardo Leite, atual governador do Rio Grande do Sul, que tem 33 anos.

Cardoso também falou da soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele avalia que o discurso adotado por Lula desde que deixou a cadeia instiga a "radicalização" e "beneficia" o presidente Jair Bolsonaro.

"Para o presidente Bolsonaro, talvez seja uma oportunidade para voltar a polarizar. Pelo discurso que eu ouvi do presidente Lula, o presidente Bolsonaro pode dizer: 'Tá vendo, olha o perigo'. Então aumenta a radicalização."

Sobre Bolsonaro, FHC disse que o presidente instituiu um "governo de família", que "tropeça sozinho" e que vê "inimigos onde não tem". Ele também criticou referências recentes da família Bolsonaro ao AI-5, instrumento da ditadura militar editado em 1968 que fechou o Congresso e cassou as liberdades individuais

"Acho lamentável que as pessoas falem sobre o AI-5 como se fosse uma coisa banal. Não foi, foi grave, fez mal à democracia. Conseguimos repor a democracia no Brasil e temos que lutar para preservá-la", disse FHC.

No início do mês, o deputado Eduardo Bolsonaro disse que "se a esquerda se radicalizar" um novo AI-5 poderia ocorrer. Na segunda (26/11), foi a vez de Paulo Guedes dizer: "Não se assustem então se alguém pedir o AI-5". O ministro da Economia fez o comentário ao comentar sobre falas recentes do ex-presidente Lula.

Fernando Henrique Cardoso está na Inglaterra a convite do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, para falar sobre os 50 anos de seu livro mais consagrado como sociólogo: Dependência e Desenvolvimento na América Latina.

A palestra ocorre num momento em que a América Latina parece distante da 'eterna' promessa de desenvolvimento. Crises na Colômbia, Bolívia e Chile, e a polarização no Brasil são exemplos do momento de convulsão política e social na região.

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil - O senhor dará uma palestra em Oxford em comemoração aos 50 anos de um de seus livros mais consagrados como sociólogo, Dependência e Desenvolvimento na América Latina. Isso acontece num momento em que grande parte dos países da América do Sul vive crises seríssimas, principalmente Chile, Bolívia e agora Colômbia. O que essas convulsões revelam sobre o momento político da região e essa eterna luta da América Latina pelo desenvolvimento?

Fernando Henrique Cardoso - É verdade, mas o que acontece nesse momento não é só na América Latina. Há uma agitação política no mundo todo. Agora a questão é mais de comunicação. O mundo contemporâneo, a internet, a conversa instantânea mudou muito as coisas, o que levou a uma grande transformação também na ação política. As pessoas se juntam de repente. Um fio desencapado pega fogo. Os partidos - mas não só os partidos- também as outras instituições, têm menos vigência, menos valor para conduzir o comportamento. As pessoas se relacionam diretamente. Essa transformação está hoje colocando em crise a democracia representativa.

Na entrevista à BBC News Brasil, FHC sugeriu nome de governador do RS para candidato do PSDB à Presidência e disse que Dória ainda tem que demonstrar qualidades para ser presidente© BBC Na entrevista à BBC News Brasil, FHC sugeriu nome de governador do RS para candidato do PSDB à Presidência e disse que Dória ainda tem que demonstrar qualidades para ser presidente

BBC News Brasil - O que explica essa onda de nacionalismo de direita, que a gente vê não só na Europa, mas também nos EUA e há quem inclua Jair Bolsonaro nessa lista também?

FHC - Acho que o que explica isso é o medo do futuro. Houve um avanço grande da democratização. Essas pessoas ficaram assustadas. Segundo, o que é essa globalização? Vai dar emprego? Há uma certa insegurança e isso leva a impulsos defensivos. 'Ah, deixa eu fechar o mercado'.

Nos Estados Unidos, 'tem muito mexicano aqui. Manda embora. Estão levando nossas empresas para a China, vamos ficar aqui dentro.' É uma onda de protecionismo, de nacionalismo e de exclusão. Uma onda negativa. Eu não participo desse ponto de vista.

BBC News Brasil - Então as pessoas e os Estados acabam se fechando como forma de defesa diante do medo do desconhecido...

FHC - Acho que é isso. É um medo do futuro. E diga-se de passagem, é um futuro complicado. Ao mesmo tempo em que você tem as novas técnicas de produção... A internet e a inteligência artifical roubaram tudo isso. Mas você poupa mão-de-obra e concentra renda. As pessoas têm medo.

BBC News Brasil - Vamos agora falar sobre o governo Jair Bolsonaro. Já estamos no final de novembro. Em pouco mais de um mês o governo completa um ano. Como o senhor avalia a gestão do presidente? Quais seriam os maiores erros e acertos desse governo?

FHC - Veja, eu não votei no Bolsonaro. Vamos primeiro esclarecer as coisas para que não haja confusões. Primeiro, eu acho que o governo não é homogêneo. Tem o setor econômico, que tem uma visão e tenta botar na prática essa visão, que é uma visão liberal-ortodoxa. Tem o setor da produção que cuida da agricultura e da infraestrutura. E tem o setor que é ideológico, que acha que está defendendo a cristandade contra o comunismo, que é algo que não tem mais, onde que está?

Eu não sei. Mas eles pensam que tem. E há muito tempo que não se vê um governo tão de uma família. A família tem peso. Então, não pode-se dizer que o governo está caminhando numa certa direção. Ele fala as coisas. Faz menos do que fala e o que fala assusta. Meio-ambiente, por exemplo.

A retórica é de que não é um tema importante, e é. Na prática (em termos de medidas concretas) não mudou muita coisa, mas mudou. Porque quando o governo fala, o presidente fala, o ministro fala, as coisas começam a acontecer. A queimada aumentou, o desmatamento aumentou. Eu sei que é cíclico e há momentos com mais queimadas. Mas além de ser cíclico, você tem um ingrediente que é a desatenção aparente do governo para essas questões.

BBC News Brasil - Enxerga pontos positivos?

FHC - A reforma da Previdência. Eu tentei fazer, perdemos alguma coisa como a questão da idade mínima. Tivemos que inventar o fator previdenciário. Agora foi aprovada a idade mínima. Acho que isso é um mérito importante do governo. Eu procuro fazer uma oposição equilibrada. Você não pode dizer que está tudo errado. E pegaria mal um ex-presidente jogar toda a culpa no atual.

FHC diz que Bolsonaro instituiu um 'governo de família', que 'tropeça sozinho' e 'acha inimigos onde não tem'© BBC FHC diz que Bolsonaro instituiu um 'governo de família', que 'tropeça sozinho' e 'acha inimigos onde não tem'

Mas independentemente disso o governo hesita muito e depende da área. Na área da educação, meu Deus, me preocupa porque você não vê rumo. E agora você vê um diálogo do ministro da Educação que é inaceitável. Mexe com a mãe não sei de quem. Coisas que não têm cabimento. Então, tem áreas bem retrógradas e outras são construtivas. Por incrível que pareça os militares são os mais moderados. E precisamos buscar algum tipo de moderação no Brasil.

É contra nossa cultura, o nosso espírito não é de ruptura. E o governo é muito de rupturas. Fala palavras pesadas, acha inimigo onde não tem, tropeça sozinho. E não tem uma maioria estável na Câmara. Nesse último ponto, eu não responsabilizo o governo, porque os partidos estão num processo de desintegração. Governar não é fácil.

BBC News Brasil - O senhor foi bastante criticado na época do segundo turno por não ter se posicionado, não ter declarado apoio a um candidato especificamente. Inclusive acadêmicos do mundo inteiro, de Harvard, Oxford, assinaram uma carta aberta pedindo que o senhor se manifestasse. O senhor se arrepende daquele silêncio?

FHC - Não. Ficou uma situação de tal natureza que eu não concordava com nenhum dos dois polos. Por que? Porque o governo do PT, principalmente na fase da presidente Dilma Rousseff, com quem eu nunca tive pessoalmente nenhum problema, foi muito desorganizado.

FHC diz que não se arrepende de não ter se posicionado a favor de um candidato no segundo turno da eleição: 'Ninguém é obrigado a optar entre o menos ruim e o pior.'© EPA/Sebastiao Moreira FHC diz que não se arrepende de não ter se posicionado a favor de um candidato no segundo turno da eleição: 'Ninguém é obrigado a optar entre o menos ruim e o pior.'

Levou o Brasil a uma recessão muito grande. Também tem uma certa tendência hegemonista do PT. Eu não concordo com isso. Tampouco concordava com Bolsonaro. Quando você não concorda, tem que dizer que não concorda. Ninguém é obrigado a optar entre o menos ruim e o pior.

O candidato do PT, o Haddad, eu tenho relações pessoais com o Haddad. Fui almoçar com ele, fui ao teatro com ele, quando ele era prefeito. Mas a posição que ele representava no segundo turno... E em vários estados, o PSDB disputava com o PT. Como que eu iria me manifestar pelo PT?

A posição de quem tem certa projeção política não pode ser um impulso pessoal, tem que ser pensado. É verdade que minha ligação com o PSDB é simbólica. Sou presidente de honra. Não tenho nenhuma ligação orgânica com o PSDB nem estou de acordo com muita coisa que é feita pelo PSDB, nem sou responsável por isso. Ainda assim, tenho uma certa simbologia e não posso a toda hora desconsiderar o PSDB.

BBC News Brasil - Justamente como ex-presidente da República e liderança política importante não seria uma responsabilidade sua se posicionar naquele momento?

FHC - Eu me manifestei. Eu disse que não votaria nem num nem noutro. Que não estava de acordo nem com um nem com outro. Você não é obrigado a estar de acordo com um. Claro, que se você estivesse diante da iminência de um fascismo, uma ditatura, é diferente. Mas no Brasil não tem uma ditadura. A democracia está lá. Você pode dizer o que quiser do governo Bolsonaro, mas temos liberdade. Eu vivi momentos de ditadura e eu sei o que é isso. Aqui não há tal coisa.

'É lamentável que falem sobre o AI-5 como se fosse uma coisa banal', criticou FHC. Eduardo Bolsonaro e Paulo Guedes mencionaram recentemente possibilidade de novo AI-5© REUTERS/Adriano Machado 'É lamentável que falem sobre o AI-5 como se fosse uma coisa banal', criticou FHC. Eduardo Bolsonaro e Paulo Guedes mencionaram recentemente possibilidade de novo AI-5

BBC News Brasil - Mas havia uma preocupação que o discurso, principalmente em relação a minorias, como população LGBT e indígenas, pudesse levar a uma quebra gradual da democracia. A gente tende a pensar em quebra democrática com tanques na rua, mas o mais comum é uma erosão gradual das instituições. Isso era uma visão exagerada?

FHC - Não, isso é verdadeiro, é preocupante e você tem que lutar contra isso. Vou citar Otávio Mangabeira, a democracia é uma planta tenra que você tem que regar todos os dias. É a mesma coisa nesses aspectos todos. É verdade que houve também - e isso também nos EUA - uma exacerbação da política identitária, que assustou outros setores da sociedade.

Mas a despeito disso, acho que há uma posição reacionária contra mulher, índio, negro. Eu não aceito isso. Sou contra. Temos que lutar contra isso e protestar claramente. Agora, não posso dizer que o governo tenha assumido essa posição. Tem setores que defendem essa posição e aí você tem que ser contra.

BBC News Brasil - Mas há falas do próprio presidente...

'O presidente agora mesmo está criando um partido novo e o símbolo são balas, um revólver 38. Isso não é uma coisa civilizatória. Não tem cabimento', critica FHC© REUTERS/Ueslei Marcelino 'O presidente agora mesmo está criando um partido novo e o símbolo são balas, um revólver 38. Isso não é uma coisa civilizatória. Não tem cabimento', critica FHC

FHC - O presidente agora mesmo está criando um partido novo e o símbolo são balas, um revólver 38. Isso não é uma coisa civilizatória. Não tem cabimento. Temos que ser contra. Mas nós podemos dizer que somos contra. Temos liberdade. A imprensa está livre. Eu vivi regime autoritário, vi gente torturada. É diferente. Não vamos misturar alhos com bugalhos.

Estamos numa situação em que há espaço para lutar pelo que acredita. Quando você tem duas bandeiras e nenhuma delas corresponde ao que você pensa e você tem lutas locais, o que você faz quando tem responsabilidade política? Não é tão fácil.

BBC News Brasil - Algumas das crises internas recentes do governo partiram de comentários dos filhos do presidente. Recentemente, Eduardo Bolsonaro disse que se a esquerda se radicalizasse, uma resposta poderia ser um novo AI-5. Esse tipo de discurso carrega um risco real para a democraciaQual a sua avaliação?

FHC - Esses comentários são completamente inapropriados. Devem ser criticados. Mas não creio que estejamos num momento em que é possível uma ruptura democrática por causa de um comentário. As instituições são, espero, fortes. A imprensa é forte, o Parlamento é forte e as Forças Armadas estão fora desse tipo de jogo.

Em entrevista nesta segunda em Washington, Paulo Guedes disse: 'Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?'© OLIVIER DOULIERY/AFP Em entrevista nesta segunda em Washington, Paulo Guedes disse: 'Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?'

Eu vivi o clima de 1954, na época de Getúlio, e não estamos num clima semelhante. Temos espaço para ser contra, mas não podemos pensar que esse é um sintoma de que as coisas vão para a direção expressa pelo comentário do deputado. Acho lamentável que as pessoas falem sobre o AI5 como se fosse uma coisa banal. Não foi, foi grave, fez mal à democracia. Conseguimos repor a democracia no Brasil e temos que lutar para preservá-la.

BBC News Brasil - O senhor costuma dizer que Bolsonaro se elegeu por que reforçou na campanha dois temas caros à população, combate à corrupção e à violência. O PSDB não teve nem 5% dos votos com Geraldo Alckmin na última eleição e vive uma espécie de crise de identidade. No mês passado, o partido decidiu arquivar os pedidos de expulsão de Aécio Neves, investigado na Lava Jato por crime de corrupção. O PSDB não perde assim mais uma chance de responder a essa demanda da população por uma postura mais enfática contra a corrupção?

FHC - Sem dúvida eu acho que tem que ter uma posição enfática contra a corrupção. O Bolsonaro e o partido dele naquela época tinham uma agenda negativa: não à corrupção, não à criminalidade e não ao PT. Isso pesou muito, sobretudo em áreas como SP onde o PT ficou muito marcado. E o PSDB cometeu um equívoco, que foi criticar mais o Bolsonaro que o PT. E aí ele se perdeu na retórica da política, na aproximação com a população.

Então, se o PSDB quiser ter vida, vai ter que ser mais assertivo, mais afirmativo. Com relação à posição do PSDB com Aécio Neves, é preciso não esquecer que o Aécio foi candidato à Presidência da República. Não dá para de repente jogá-lo às feras. Deixe que a Justiça atue. Nessa situação, eu tenho tido a mesma posição. Eu respeito a Justiça. O que vale para o PT vale para o PSDB. Deixe a Justiça julgar. Julgou, eu respeito. Agora, por que se antecipar à Justiça?

Recentemente, o PSDB optou por arquivar pedidos de expulsão de Aécio Neves do partido© Claudio Andrade/Câmara dos Deputados Recentemente, o PSDB optou por arquivar pedidos de expulsão de Aécio Neves do partido

BBC News Brasil- Mas (a manutenção de Aécio) não é prejudicial à imagem do PSDB? Não gera a imagem de leniência ou tolerância com a corrupção?

FHC - Claro que sim. Talvez pior do que qualquer fato tenha sido o tipo de conversa que o Aécio Neves teve. Aquilo foi negativo, é inegável.

BBC News Brasil- E para uma decisão política, não é necessária uma decisão judicial...

FHC - Eu sei, eu sei. Na matéria de corrupção, o PSDB tem que ser contra, seja lá quem for. Mas não pode prejulgar. E há também exageros na própria Lava Jato. Eu sempre defendi (a Lava Jato), porque é uma coisa inédita no Brasil colocar ricos e poderosos na cadeia. Eu não gosto de ver, porque alguns deles eu conheço, mas acho que é importante que tenha sido feito. Ela às vezes exagera e deve-se condenar o exagero.

Mas isso foi um fato importante para o Brasil e se os partidos não entenderem que a população cansou da corrupção, não tem o que fazer. E hoje no Brasil poucos políticos andam à vontade. No fundo é bom, porque mostra que o Brasil está contra a generalização da corrupção. E quando falam do PT, do presidente Lula, eu entendo porque ele estava preso. A coisa mais grave não foi ele ter feito isso ou aquilo, é o PT ter organizado um sistema de mensalão, organizou o poder através da corrupção.

BBC News Brasil- Voltando rapidamente a Aécio Neves. Se o senhor estivesse no lugar dele, renunciaria ao partido?

FHC - Eu renunciaria sim. Eu renunciaria.

BBC News Brasil - Uma das lideranças mais fortes no PSDB hoje é o governador João Dória, agora o partido incorporou Alexandre Frota, houve sondagens a Joice Hasselman e discussões sobre fusão com o DEM. Como o senhor enxerga esse novo rumo do PSDB?

'(Doria) apoiou (Bolsonaro) e eu achei um exagero. E disse isso a ele. Mas cada um vai construir sua liderança. Pessoalmente, eu nunca vou apoiar candidaturas ou partidos que estejam com a marca reacionária na cultura, na economia, no que quer que seja', diz FHC© Governo de SP '(Doria) apoiou (Bolsonaro) e eu achei um exagero. E disse isso a ele. Mas cada um vai construir sua liderança. Pessoalmente, eu nunca vou apoiar candidaturas ou partidos que estejam com a marca reacionária na cultura, na economia, no que quer que seja', diz FHC

FHC - Essas coisas se modificam muito. O PSDB quando nasceu, e eu fui um dos fundadores, a ideia era outra. A ideia era um partido com mais coesão, que fosse mais orientado pelo social do que pelo jogo do poder pelo poder. Então, eu não posso concordar com muita coisa que está acontecendo (no PSDB). Mas é a transformação. Os partidos estão perdendo vigência para conduzir o povo no voto. Eu não concordo.

Mas eu estou muito afastado do dia a dia. O governador Doria teve um pai que foi exilado, e ele foi exilado junto. Ele sempre teve uma trajetória democrática e trabalha. Isso é suficiente para ganhar eleição? Não sei. Acho que estamos num momento em que as forças de renovação estão aparecendo fora dos partidos.

BBC News Brasil - No PSDB, qual seria, na sua opinião, o melhor nome para disputar a Presidência em 2022?

FHC - Não quero fazer escolhas. Mas, de qualquer maneira, tanto o governador de São Paulo quanto o governador do Rio Grande do Sul, que é um rapaz jovem, expressam esse momento, de renovação. Há pessoas de fora, como o Luciano Huck.

FHC citou nome de governador do RS, Eduardo Leite, como possibilidade do PSDB para a eleição presidencial de 2022© Gustavo Mansur / Palácio Piratini FHC citou nome de governador do RS, Eduardo Leite, como possibilidade do PSDB para a eleição presidencial de 2022

BBC News Brasil - Com Doria, o PSDB não consolidaria uma guinada à direita?

FHC - Não sei o que se chama hoje de direita. É difícil qualificar essa direita. Precisa ver se ele é direito.

 

 

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