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INCÊNDIOS

Com o Piauí esfumaçado pelo fogo que se alastra em seu território, ICMBio desloca 14 brigadistas para combater as chamas na Amazônia

Aeronave privada da companhia Vale do Rio Doce aterrissou no aeroporto de São Raimundo Nonato e levou profissionais para região norte do país

06/10/2020 10h16Atualizado há 3 semanas
Por: Alírio Ribeiro
Fonte: André Pessoa (Edição Especial)
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 Incêndios ameaçam Serra da Capivara. Na foto, vista aérea de uma queimada controlada na semana passada nas imediações do parque. Foto André Pessoa.
Incêndios ameaçam Serra da Capivara. Na foto, vista aérea de uma queimada controlada na semana passada nas imediações do parque. Foto André Pessoa.

Considerada uma das aeronaves mais seguras e modernas do mundo, um Embraer 190, com capacidade para transportar uma centena de passageiros, aterrissou ontem no aeroporto Serra da Capivara, na zona rural do município de São Raimundo Nonato (525 km de Teresina), para o embarque de 14 brigadistas sazonais do Parque Nacional da Serra das Confusões, a principal reserva do Bioma Caatinga. Os profissionais treinados e equipados pelo programa Prevfogo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), irão ajudar no combate aos incêndios na floresta amazônica. 

Embarque de brigadistas para a Amazônia: Foto: Esaero AirPorts

Embarque de brigadistas para a Amazônia: Foto: Esaero AirPorts

No entanto, uma questão deixou especialistas em meio ambiente no Piauí preocupados. Para a presidente da Rede Ambiental do Piauí (Reapi), Tânia Martins, a ação de deslocar profissionais locais capacitados para combater incêndios pode gerar ainda mais déficit na capacidade do estado em reagir as queimadas. "Enquanto isso, o Piauí está se desmanchando em fogo. É muita incoerência, não temos bombeiros em 221 municípios do estado. Nas imediações de Picos é fogo, fogo, fogo. Quem autorizou esse deslocamento”, questionou a ambientalista. 

Segundo a analista ambiental aposentada do ICMBio e ex-chefe do Parque Nacional da Serra da Capivara, engenheira agrônoma Eugênia Medeiros, é temeroso enviar equipes locais para outras regiões. "Assisti a matéria no Jornal Nacional, foi bem realista e assustadora com as imagens aéreas. Infelizmente nosso patrimônio ambiental está em chamas”. Antes, Medeiros já tinha questionado o projeto: “Beleza, acho fantástico nossos brigadistas irem, mas temos que garantir nossas UCs (Unidades de Conservação – grifo nosso)". 

Já a uruguaia Rosa Trakalo que acompanha Niéde Guidon desde a década de 1990 no Piauí, disse ter ficado aliviada ao saber que não são os brigadistas da Serra da Capivara. “São ex-brigadistas do Parque Nacional da Serra das Confusões que não tinham sido recontratados e agora tiveram uma oportunidade. Os nossos estão todos aqui de prontidão", disse ela esclarecendo a situação. 

A aeronave que veio a São Raimundo Nonato buscar os brigadistas pertence a companhia Vale do Rio Doce, que agora se chama apenas Vale S/A. Ela é uma mineradora multinacional brasileira – classificada entre as grandes do planeta – e uma das maiores operadoras de logística do país. Recentemente ficou conhecida mundialmente pelos acidentes ambientais que protagonizou, em especial, no estado de Minas Gerais. 

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), nesse ano, até agora, começo de outubro, o Piauí está em segundo lugar no número de queimadas em todo o Nordeste, só perde para o Maranhão com 3.234 focos no mês de setembro. Em 2018 o território piauiense que abriga vegetação de Caatinga e Cerrado na maior parte da sua área, já tinha sido o campeão em todo o Brasil em número de incêndios monitorados pelo Inpe.  

Todos os brigadistas piauienses que foram deslocados para a Amazônia são moradores dos municípios de Caracol e Guaribas. Muitos, na verdade, a maioria deles, nunca tinha viajado numa aeronave, sequer visto um avião desse porte ao vivo. O embarque foi feito de forma extremamente profissional pela empresa Esaero Airports que administra o aeroporto de São Raimundo Nonato. Para os moradores da cidade sertaneja, o barulho da chegada de grandes aeronaves já parece uma cena comum, como numa espécie de prelúdio do que possa acontecer no futuro com o desenvolvimento do turismo local. O aeroporto está pronto, operacional, tem até brigada contra incêndios equipada com viatura corta-fogo. Só resta mesmo a chegada de voos comerciais. 

JORNAL NACIONAL 

Ontem o jornal de maior audiência da televisão brasileira deu destaque as queimadas que se proliferam dia após dia no Piauí, mostrando imagens aéreas impactantes de um grande incêndio que chegou a menos de 5 quilômetros do Parque Nacional da Serra da Capivara, na zona rural do município de São Raimundo Nonato na semana passada. A reserva federal é uma das mais importantes do Brasil e protege centenas de abrigos com pinturas rupestres consideradas Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. 

O fogo causou medo e apreensão nos moradores da região pois queimou exatamente um trecho de mata de Caatinga conservada entre os assentamentos rurais da Serra dos Gringos e do Novo Zabelê, onde vivem centenas de famílias com muitas crianças e idosos. Propriedades vizinhas como a do vigilante Júlio Bastos Filho, foram dizimadas pelas chamas. “Tudo que eu tinha plantado e investido se perdeu de um dia para o outro”, disse ele ao Jornal Nacional. 

Queimadas no entorno do Parna Serra da Capivara / Foto: André Pessoa

  

Queimadas no entorno do Parna Serra da Capivara / Foto: André Pessoa

Descontente com a repercussão nacional da matéria na TV Globo, a professora maranhense do curso de turismo do Instituto Federal de Educação (IFPI), em São Raimundo Nonato, Flávia Louzeiro, se manifestou nas redes sociais aparentemente contrariada. No entanto, para a maioria dos guias que trabalham no parque nacional, o lamento da funcionária pública traz camuflado outros interesses e, não como faz parecer, a tristeza com o comprometimento da imagem e consequentemente do turismo na região do parque nacional. Eles explicam que ela é sócia com o marido numa agência de turismo na cidade e, na visão comercial dela, a reportagem sobre as queimadas prejudica o seu negócio. 

SEM AÇÃO 

Enquanto o Piauí arde em chamas de norte a sul, de leste a oeste, a secretária estadual do Meio Ambiente, Sádia Castro, no cargo graças a uma indicação política do Progressistas na pré-história do governo de Wellington Dias (PT), aparentemente sem nenhum outro argumento, deu a entender em rede nacional que os bombeiros do Piauí são os últimos profissionais a chegar aos locais de incêndios. 

Irmã da prefeita de São Raimundo Nonato Carmelita Castro (PP), que tenta a reeleição e representa uma oligarquia feminina, Sádia responde pela área ambiental do Governo do Piauí e foi ouvida pela TV Globo. No entanto, visivelmente empolgada com os holofotes nacionais, foi logo divulgando, da boca para fora, o seu mirabolante e "inovador" plano de criar brigadas municipais para combater os incêndios, mas terminou cometendo uma imensa gafe. 

Toda ofegante num cenário detalhadamente maquiado para a entrevista, onde a foto do governador foi inserida ao fundo e um mapa do Piauí ficou em destaque, Sádia Castro disse: "Para que essas brigadas municipais possam tomar as primeiras atitudes de enfrentamento aos incêndios até que chegue a Secretaria do Meio Ambiente, até que chegue a Defesa Civil, até que chegue o Corpo de Bombeiros". Na visão da secretária, os militares são os últimos a chegar na cena da tragédia ambiental. 

Sem nenhum projeto aprovado nesse sentido dentro da própria Semar, sem recursos garantidos e sem tempo útil para formar essas brigadas, a secretária estadual do Meio Ambiente cai no ridículo ao apresentar esses argumentos como ação para combater os incêndios que se espalham a cada vento que sopra mais forte no estado. Descrente na sonora de Sádia Castro, o repórter Renan Nunes segue impávido com o seu texto narrado: "Enquanto o socorro não vem, os incêndios seguem provocando estragos". 

PEGANDO FOGO 

Para um estado que tem mais de 2 milhões de habitantes, com cidades de médio porte importantes como São Raimundo Nonato, Oeiras, Corrente, Bom Jesus, Uruçuí, Campo Maior, Pedro II, Esperantina, Piracuruca, entre tantas outras, e saber que nenhuma delas, nenhuma, possui uma unidade do Corpo de Bombeiros da Policia Militar, é muito preocupante, até dramático. Para piorar o que já é efetivamente um caos na segurança pública, vamos acrescentar calor, vento, vegetação seca, ação criminosa e muitos focos de incêndios nos estados vizinhos. Pronto, temos a receita da tragédia anunciada. 

No domingo passado, no ranking das cinco cidades do Nordeste com temperaturas mais altas, o Piauí fez dobradinha e ganhou o primeiro e o segundo lugares. O “bicho" pegou em Bom Jesus e Piripiri, mas ao contrário das estatísticas anuais, Bom Jesus, com 40,6C perdeu para Piripiri que teve 40,9C. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). 

Todo ano, já é até uma questão "cultural”, adaptada a vida cotidiana, entre os meses de setembro e dezembro, os mais quentes do ano, o Piauí sofre fortemente com as queimadas. E, apesar de ser um drama previsível, com alta probabilidade de criar tragédias, até mesmo colocar em risco vidas humanas, a estrutura do Corpo de Bombeiros continua, ano após ano estagnada em todos os sentidos: recursos humanos, financeiros e estruturais. 

Infelizmente, ainda hoje, o Piauí possui uma das menores infraestruturas de combate a incêndios de todo o país. São apenas três centenas de soldados especializados em combate ao fogo em todo o território piauiense, com unidades do Corpo de Bombeiros em apenas 4 cidades: Teresina, Floriano, Parnaíba e Picos. Alguns municípios no sul do estado ficam distantes mais de 500 quilômetros dessas bases. Para população só resta mesmo rezar para que uma tragédia anunciada não bata na sua porta.

 

VEJA AQUI  REPORTAGEM DE ONTEM (5) NO JORNAL NACIONAL (TV GLOBO) SOBRE AS QUIMADAS NO ENTORNO DO PARQUE SERRA DA CAPIVARA

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