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Coronavirus

'A gente vai sangrar por muito tempo, com níveis altos de mortalidade', diz pesquisador sobre segundo lugar em mortes por Covid-19 no mundo

País só fica atrás dos EUA em óbitos, após passar Reino Unidos; veja os erros na pandemia e as previsões

13/06/2020 08h38
Por: Alírio Ribeiro
Fonte: O Globo
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Desde ontem (12/6), o Brasil passou a ser o segundo país do mundo onde a Covid-19 mais matou, com 41.901 óbitos registrados em menos de três meses, segundo dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa a partir das bases das secretarias estaduais de Saúde.

As 843 mortes registradas em 24 horas levaram o país a ultrapassar o total do Reino Unido (41.566), ficando atrás apenas dos EUA (114.613). Dos três, porém, o Brasil é o único onde a epidemia ainda cresce.

— A epidemia no Reino Unido está na descendente há varias semanas, mas no Brasil está na ascendente — destaca Ricardo Schnekenberg, médico pesquisador da Universidade de Oxford que integra grupo dedicado a estudar a dinâmica da pandemia no mundo.

Na opinião do cientista, os três países nutriram epidemias de grandes dimensões, em parte, por erros de gestão nos primeiros meses do ano.

O Brasil, porém, possui um problema mais crônico do que as outras duas nações para articular o combate à pandemia em nível nacional.

— No Reino Unido, diferentes regiões do país seguiram a mesma recomendação, e isso foi importante, enquanto no Brasil há muita briga, confusão e falta de liderança nacional — diz o médico, coautor do relatório coordenado pelo Imperial College de Londres sobre o Brasil.

O autor principal do trabalho, Neil Ferguson, foi uma figura chave em mudar a política de combate ao coronavírus no Reino Unido, em março, quando o gabinete de Boris Johnson ainda resistia a recomendações científicas de distanciamento social.

Na opinião do cientista, o governo britânico desperdiçou um tempo precioso se digladiando com a ciência.

— Se tivéssemos introduzido medidas de lockdown uma semana antes, teríamos reduzido as cifras de mortalidade finais ao menos pela metade — afirmou Ferguson na última quarta-feira (10), em testemunho a um comitê parlamentar.

Rápido, mas fraco

No Brasil, a trajetória da epidemia foi diferente. Estados e municípios grandes foram relativamente ágeis em anunciar recomendações de isolamento social, como fechamento de escolas e comércio, mas os elogios dos cientistas à gestão brasileira da epidemia param por aí.

— A resposta do Brasil foi bastante inicial mesmo— explica Wesley Cota, pesquisador visitante da Universidade de Zaragoza, na Espanha, que integra o projeto CovidBR, para monitorar o Brasil, em colaboração com a Universidade Federal de Viçosa (MG).

Ele argumenta, porém, que uma contenção abaixo do desejado nas capitais acabou por deixar a situação transbordar para o interior, que agora alimenta boa parte dos números do surto.

— Está acontecendo agora em várias cidades de Minas Gerais, por exemplo, uma iniciativa de reabertura, mas elas estão abrindo num momento em que, na verdade, deveriam se fechar ainda mais — diz o pesquisador.

Segundo Cota, não cabe, neste momento, comparar o Brasil com outros países europeus que tiveram surtos grandes de Covid-19.

— Aqui na Espanha ocorreu um fechamento muito rígido em março, a gente ficou num lockdown completo por dois meses. Ninguém podia fazer praticamente nada fora de casa a não ser ir ao supermercado — conta.

Para Schnekenberg, a política britânica foi eficaz, ainda que tardia.

— A partir do momento que tomaram a decisão de fechar, fizeram um bom trabalho — conta.

Ele vê mais semelhança do Brasil com os EUA, pela existência de populações mais compartimentadas nos vários estados.

— O que eu acho que vai acontecer nos EUA, como no Brasil, é que, passado o susto inicial, vão ser mantidas restrições em algum grau, mas vai ter uma situação caminhando com pequenas epidemias acontecendo de estado em estado ao longo do tempo — diz. — A gente vai sangrar por muito tempo, com níveis altos de mortalidade. Vai ser diferente da Europa, que teve um período curto e muito intenso — analisa.

Segunda onda

Mesmo em países que, aparentemente, já passaram pelo pior, há receio de uma nova onda do Sars-CoV-2, e não faltam críticas de cientistas.

O “British Medical Journal”, um dos periódicos médicos mais influentes do mundo, avaliou a gestão Boris Johnson no enfrentamento da epidemia como “pequena, muito atrasada e cheia de falhas”, em editorial.

Dois dos três países que estão no topo do ranking de mortes pela Covid-19 podem argumentar, pelo menos, que seus números de casos e de óbitos estão caindo.

O Brasil, com 829.902 casos oficiais de Covid-19, está longe dos 2 milhões dos EUA, mas não numa distância impossível de alcançar.

— Eu não duvido de que isso aconteça, mas vai depender da questão da interiorização também nos EUA, um país complexo, assim como nós — diz Cota.

Cenas de multidões nos protestos contra o racismo nos EUA preocupam epidemiologistas. No Brasil, o mesmo se dá em manifestações políticas e filas para entrar em shopping centers.

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